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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Próprio Caminho




Ela sentou-se na cama, o coração acelerado, sentindo a ansiedade contida nos instantes finais do sonho! A cena vinha se repetindo insistentemente nos últimos tempos: queria chegar a um determinado lugar, mas, depois de inúmeras tentativas e voltas, continuava sem encontrar o caminho. Se o cenário mudava ou mudavam as pessoas envolvidas de um sonho para o outro, permanecia a mesma sensação de ansiedade, angústia e impotência por não conseguir concluir o trajeto. Para acalmar-se um pouco, decidiu acender a luz e colocar as idéias no papel. Precisava aproveitar a insônia compulsória para livrar-se do que a estava incomodando.
Várias perguntas surgiram em sua mente: estaria se sentindo perdida diante dos acontecimentos de sua vida? Ou a questão era saber que caminho a levaria onde desejava chegar? Ou, mais especificamente, a necessidade era encontrar o seu caminho para atingir suas metas?
Diante do impacto dessa última pergunta, constatou que muitos de seus próprios sonhos não tinham sido ainda alcançados. Em contrapartida, havia assumido sonhos que não eram seus, trilhado caminhos que não foram escolhidos por ela e nem atendiam aos anseios de seu coração. Havia ajudado a materializar os ideais de outras pessoas, deixando que os seus ficassem em segundo ou terceiro plano.
Ainda que esta não fosse a análise correta, encaixava-se perfeitamente no momento. Trazia à luz uma parte de sua vida, à qual nunca havia dado atenção. Este seria o motivo para o sonho se repetir tantas vezes - para ela se dar conta dessa lacuna? Para confiar e ter a necessária coragem de arriscar-se para alcançar suas metas? Sua sensibilidade mostrava que era chegado o momento de escolher o seu próprio caminho e atender aos anseios de sua individualidade.
Esclarecidos os motivos de sua ansiedade, voltou para a cama e adormeceu serenamente...

domingo, 23 de setembro de 2012

Sem Ensaio

Entre a grandeza e a fragilidade, a vida acontece. Um segundo a mais ou a menos pode determinar sua continuidade ou sua interrupção, sem passar por qualquer tipo de ensaio! Tudo o que vivo e faço faz parte da peça oficial e fica registrado para sempre. Posso reparar meus erros, mas não posso apaga-los simplesmente. Por isso é tão necessário cuidar que pensamentos, palavras e ações estejam harmônicos entre si e voltados para o bem. Manter minha atenção no presente, para evitar o arrependimento pelo passado, ou a ansiedade quanto ao futuro que ainda não chegou. Um já passou e o outro é resultado do que foi feito antes, então pode ser concebido. Porém, nem sempre eu me lembro deste poder que tenho em minhas mãos e não me empenho em usá-lo a meu favor. Em muitos momentos esqueço que posso preparar minhas próprias porções de felicidade diária!

[Re]Começo



Seu coração bate no meu peito, compassadamente! Agora posso acordar a cada manhã e fazer planos para construir minha felicidade. O ritmo é repousante e faz-me pensar em savanas douradas que ondulam ao vento ou cerrados que brilham verdejantes, onde meus pés caminham em câmera lenta. Dou um passo de cada vez. Agarro com as mãos do entendimento esta nova realidade e reavivo meu sonho de viver. Este bem poderia passar quase anônimo, se não fosse a familiaridade quase intimista, que liga meu corpo ao seu coração. Estranha realidade esta, que de um lado é tristeza e do outro é vida. De um lado é ponto final e do outro é o recomeço de uma antiga história. Devo esta alegria a este inesperado destino que nos uniu sem nem mesmo nos conhecermos. Que nos aproximou pela essência, mesmo desconhecendo nossa forma. Hoje sinto em mim a presença de alguém que não conheço, sou parte da falta de alguém que nunca vi, mas que satura minha vida de gratidão. Compreendo, afinal, que nenhum lado é diferente do outro, porque ambos fazem parte de um mesmo processo. Pode ser que um dia, essa parte de você que está em mim, encontre outra parte de você por aí. Talvez elas se atraiam pelas experiências em comum vividas. Ou pode ser que se cruzem, sem que eu perceba este elo invisível, que fez do meu, a continuidade de seu destino.


Homenagem aos anônimos doadores de órgãos...

Avesso

 
 
O que doía muito antes, hoje já está suportável. O que fazia sofrer há algum tempo atrás, agora provoca apenas um certo desassossego no coração. O que antes era a noite de seus sentimentos, hoje é o alvorecer de um novo dia, que traz com ele a promessa implícita de novas oportunidades e recomeços. Para livrar-se dos últimos traços de tristeza, vira seu coração do avesso e limpa todos os vãos escondidos, para deixar espaço livre para o que de bom a vida tem para lhe oferecer. Até o sol, que andava desaparecido do seu céu particular, voltou a iluminar e aquecer seu corpo, provocando um gostoso arrepio de prazer. Viva! Sente-se viva, integrada, completa! Sente-se inteira no tempo presente – pés, corpo, mente! Faz suas escolhas, estabelece suas prioridades. O que é bom, fica! O que já deixou de ser bom, apaga e reescreve. Simples assim! Quem disse que viver é complicado?

Ato Falho

Naquele momento de descontração, o nome veio naturalmente, lá do fundo do inconsciente, e verbalizou-se com naturalidade... Tanta, que lhe passaria despercebido se ela não tivesse se desvencilhado dele, com a interrogação e a surpresa estampadas no olhar, a espera de uma explicação. Levou ainda alguns segundos para dar-se conta que havia feito ou dito algo errado! Revisou em vão suas últimas palavras. Olhou para ela e perguntou:
- O que foi que aconteceu? Porque está me olhando desse jeito?
O olhar dela ficou sombrio e começou a soltar pequenas chispas de indignação! Ele começou a ficar preocupado! Meu Deus, o que teria deixado escapar? Forçou um meio sorriso, tentando desviar a atenção dela.
Então ela soltou a bomba!
- Quem é Elisa?
Ele perdeu a cor, mas recompôs-se rapidamente e respondeu de forma indiferente:
- Elisa? Conheço tantas elisas... Tem até uma moça que trabalha lá no escritório com este nome. Como esbarrei com ela hoje, devo ter ficado com seu nome na cabeça.
Intimamente, torceu para que a conversa terminasse por ali. Infelizmente, esta não era a intenção dela.
- Não... acho que eu já ouvi esse nome antes.
Depois de alguns segundos, continuou:
- Estou lembrando que sua mãe ou seu irmão contaram sobre uma antiga namorada, pela qual você foi muito apaixonado. O nome dela era Elisa!
Deixando os bons modos de lado, sua voz começou a se alterar – passou pelo ciúme, depois o despeito e chegou na raiva.
- O que significa isto? Por que falou o nome dela agora? Está lembrando dela porque?
Chateado com tantas perguntas, ele apelou:
- Ah, pelo amor de Deus!!! Não tenho tempo para essas bobagens! O que está passando por sua cabeça? Tudo isto por causa de um nome?! Está sem o que fazer, só pode!
Depois disso saiu da sala pisando firme, mostrando uma segurança muito maior do que sentia no momento. Quando saiu de linha de visão dela, soltou um suspiro de alívio, pedindo a Deus que ela não fosse atrás dele!
- Essa foi por pouco, pensou!
Chateado consigo mesmo, pensou que precisava ter muito cuidado com as lembranças guardadas. Elas vêm à tona nos momentos mais inapropriados. Uma pequena semelhança nas situações pode favorecer erros impensáveis, que podem encerrar um significado mais profundo se analisados. O ato falho pode ser um sintoma – a constituição de compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido.
Esta noite ele dormiu no sofá da sala...

domingo, 19 de agosto de 2012

Pedacinhos de amor...



Espalho meu amor nas entrelinhas da vida, escondo um pedacinho sob o travesseiro para perfumar os sonhos, deixo um pouco de reserva sobre o parapeito da janela de meus olhos, distribuo porções entre cada um dos seres que me querem bem. Adiciono à gorjeta no restaurante ou na compra do pão, misturo na receita da comida de domingo, ou mesmo na de segunda-feira. Coloco uma parte no abraço que dou na amiga que não vejo há muito tempo, ou para a outra que vi faz apenas um dia, mas que precisa de uma dose adicional de carinho. Deixo no recadinho de aniversário, no olhar que troco com um filho, na conversa tarde da noite com uma pessoa distante e querida, ou com a filha que receia a dor que faz crescer por dentro. Coloco uma pitadinha junto com o açúcar do café da manhã, no suco que vou servir para a visita. Também no bom dia para o porteiro ou para a vizinha que pouco vejo, mas que sempre tem um sorriso para dar em troca e cuja cachorrinha faz muita festa quando me vê.
Mesmo assim, já percebi que por mais que eu gaste e espalhe esse amor por aí, mais eu tenho, mais ele retorna para mim. Porque o amor é a grande mágica que Deus empregou na concepção humana - resolve desavenças e diferenças, aumenta as afinidades, alimenta as amizades. O amor usa uma linha direta e exclusiva com todos os outros corações!

 

Sair do Casulo...


- Mãe, porque dói tanto sair do casulo?
- Qual casulo?
- O casulo da vida... como as borboletinhas... desabrochar para a vida...
- Sair do casulo é necessário à sobrevivência delas, independente da dor. A qual casulo se refere na vida humana?
- Ao amadurecimento....
- Dói sim... Não queremos perder a proteção e a inconsciência do casulo. O sofrimento favorece e acelera o amadurecimento. Podemos amadurecer naturalmente, mas isto é raro. A alegria não deixa espaço pra isto. A dor provoca a reflexão. Sabe que sem essa passagem as borboletas não sobrevivem? É a dor que as torna fortes para viver e voar.
- Tomara que me deixe forte mesmo, mãe, porque às vezes eu acho que sem você, sem o papai, eu desmoronaria. Porque eu não me sinto madura ainda. Não sei o que a vida me reserva...
- Então, está passando da hora - nosso tempo esta acabando. Esta é minha maior angústia em relação a você. Não sei o que será de você se formos antes que se independa completamente...
- Mas vocês não vão, não é?
- Só Deus sabe esta resposta, filha, nunca sabemos quando iremos partir. Quero deixar você bem. Eu te amo tanto!
- Eu te amo muito também, mãe! Gosto de ter você por perto.
- Eu também.
- Você me conhece. Sabe que, mesmo eu não sendo tão presente, não é por falta de amor nem vontade. É porque eu sou assim mesmo, desligada. Não é por mal!
- Preocupo-me por você não estar ainda independente. Tudo pode mudar de uma hora para outra.
- Eu penso sobre isto também, por isso tenho tanto medo. A vida é muito frágil!
- Sim.
- Tenho medo de ficar sem as pessoas que eu amo, sou apegada demais.
- Eu era assim com meus pais. Especialmente minha mãe. Tive que me adaptar.
- Eu também sou assim, especialmente com você. Você é tão igual a mim! Eu sei que é! Só não entendo como, mesmo sendo tão iguais, eu ainda seja tão imatura. Mesmo você sempre me aconselhando tão bem, me dando todas as coordenadas que eu preciso. Eu só consigo aprender sofrendo, não consigo naturalmente.
- Talvez o sofrimento tenha me ajudado a amadurecer mais rápido. Pode acontecer o mesmo com você. A luta faz parte do processo da vida.
- Mas eu sofro com isto. Sofro por ser assim.
- Então decida mudar - só você pode fazer isto.
- É verdade!
- Comece por pequenas coisas, pequenos problemas, não aceite ser prejudicada. Reaja, exija seus direitos!
- Pois é, eu sou assim, só consigo resolver coisas pequenas. Quando a coisa aperta eu peço ajuda pra alguém.
- Ser ajudada faz parte do aprendizado. Mas de vez em quando você tem que aprender a voar sozinha.
- Mas eu sempre quero além da ajuda, quero que alguém faça por mim. Eu quero mudar pois é ruim essa coisa que eu sinto às vezes de estar num casulo.
- Se já sabe isto, fica mais fácil mudar. Pior seria se você não enxergasse isto!
- Isto é verdade!
- Faça enquanto estamos por perto para ampará-la, se for preciso. É como um ensaio e ensaio não é a peça oficial. Esta vai começar quando não estivermos mais por perto. Mas, ainda há muito tempo, não fique triste. Estou-estamos por aqui ainda...
- E estarão para sempre no meu coração. Eu te amo, mãe. É tão bom poder contar com você!
- Eu te amo filha, muito mesmo!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cabo de Guerra

Nem sempre nossas escolhas são simples e rápidas de serem feitas. Nem sempre as alegrias são tantas que podem superar a força das adversidades e das tristezas. Nem sempre nossos pensamentos se eternizam nos melhores ou damos o melhor de nós mesmos em cada situação que nossas escolhas nos colocam. Ora estamos de um lado, ora estamos do outro de um cabo de força imaginário, vivenciando uma disputa constante dentro de nós mesmos. Vence o lado que está melhor preparado ou fundamentado em convicções profundas. Constatar isto em nós mesmos não significa despreparo de nossa parte, fraqueza de caráter ou que não sabemos ainda o que queremos da vida. Aprendemos a cada dia; crescemos e nos transformamos em alguém que não fomos no dia, ou na situação anterior. Significa que estamos vivos, que temos metas e ideais a serem alcançados. Para que isto ocorra de fato, muitas vezes temos que abrir mão de um lado, mesmo que em algum momento ele tenha sido o mais importante e o de maior peso para nós. Mas, em algumas situações, ele se materializa na disputa entre entregar os pontos e reagir para nos manter ativos, inteiros, apesar de todos os pequenos fatos que despedaçam nosso coração. Outras vezes, fora e independente de nós, determina o vencedor da luta entre a vida e a morte. Ora a medicina nos salva, ora ela se torna impotente diante da doença. Porém, em todos os casos, é a força e a sabedoria do Criador que determina o tempo de semear, de cultivar, de colher e de partir...

Valores Invertidos

Neste país, onde os bons exemplos não são abundantes, quando um acontece vira notícia, ainda que não tenha o ibope daquele que segue o caminho contrário. Constatamos, não sem tristeza, que o comportamento que deveria ser usual se torna exceção e que nem todos permanecem fiéis aos princípios morais que lhes foram ensinados, quando um caminho mais fácil se abre paralelo ao anterior. Com tantas mudanças na moral – pública e pessoal, para praticar a exceção das falsas regras vigentes ainda encontramos, por todos os cantos do planeta, seres que aprenderam desde o berço, com a própria experiência ou com a alheia, que tudo que se ganha de forma escusa, se perde em maior proporção em dignidade. Para ganhar a confiança na própria capacidade de atingir metas e vitórias pelo próprio esforço, passam longe da mentira das vantagens, do lucro fácil e rápido, dando às coisas e aos fatos o valor atemporal da honestidade.

Última Gota



 
Ainda que assim pareça ao primeiro olhar, "não é a última gota que faz transbordar o copo, mas a soma de todas elas". Com a saudade também acontece assim – os fatos vão passando, as lembranças vão se acumulando na mente e se somando no coração, pelos mesmos ou por motivos diferentes, ainda quando a causa original é uma só. Acontece uma espera sem encontros aqui, uma despedida antes de saciar a presença ali, uma presença que não foi à altura do tempo que se esperou acolá. Pode ser a saudade de uma fase, de um momento, de um beijo, de um abraço, de um afago, de uma palavra – de mãe, de pai, de irmão, de amigo, de um amor que foi muito bom enquanto durou... Tudo isto vai se somando e se acumulando como uma represa dentro de nós. E em certo momento tudo isto transborda, extravasa e se espalha em volta do nosso coração – e ele parece afogar de tanta saudade....